Os deuses: Misterioso e divino primórdio...







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Os deuses primordiais, ou primeiros deuses em si, fazem parte apenas da mitologia grega, não tendo relação direta com uma religião propriamente dita. Sua importância é de caráter único da idéia cosmogônica, e, como tal, não tem atuação alguma como elementos protetores ou vingativos sobre os homens. Gaia e Eros, pelo que parece, eram as únicas divindades com celebração própria nesta primeira época mítica do antigo povo grego.
.....O Caos tinha como premissa o estágio primordial da realidade entendida e, anterior ao aparecimento dos seres particulares, fugindo da concepção correta da linguagem do Homem antigo. Impalpável, cobre-se de mistérios e só podem ser inteligíveis por meio de metáforas que não os prendem em completo; os sugerindo apenas. Mesmo porque, como distinguir com perfeição o que existia antes das próprias coisas sobre as quais se fala a linguagem dos Homens?
.....Do misterioso Caos teriam emergido todas as formas materiais. A Mãe-Terra, Gaia pode, desta maneira, ser considerada a primeira aparência da matéria que, sozinha gera Urano pela latente necessidade de se ter um companheiro. Seu contemporâneo no Caos, Eros, a espiritualidade do amor, convence Gaia a unir-se ao seu primogênito Urano. Fecundada por ele, Gaia dá à luz aos Titãs, aos Ciclopes e aos Hecatônquiros em primeira estância. Estes são a personificação das forças da natureza material que, impõem sempre as maiores dificuldades e obstáculos no surgimento das formas ordenadas e constantes da vida. Sua correspondência é a primeira etapa da evolução das coisas no mundo. Fixando assim, como representação os cataclismos que transformam a face do planeta, estabelecendo o devido preparo para receber as futuras e diversas espécies de animais e, bem mais tarde, o Homem.
.....Tidos como entidades destrutivas, os primeiros filhos de Gaia causam as erupções vulcânicas, detonam terremotos, furacões e as temíveis tempestades. O pai, Urano, revolta-se contra os Ciclopes, Titãs e Hecatônquiros e os prendem nas profundezas da própria esposa, Gaia (terra). Revoltada, Gaia, Mãe-Terra e Mãe-Matéria, liberta seus filhos, pois, ela é a personificação da natureza latente, e como tal, não pode permitir e nem impedir os fenômenos naturais de correrem em seu curso, entendido como natural.
.....Hesíodo mostra Cronos, o tempo em sua lenda cosmogônica como um indomável filho Titã de Gaia e Urano, com uma perplexa revolta contra o pai, por este fecundar ininterruptamente sua mãe Gaia. Mostra também a outra faceta de sua revolta em ver passivamente a devastação que Gaia sofre com a violência dos irmãos, os Hecatônquiros e os Ciclopes.
.....Para cessar a fecundação incessante por Urano e que Gaia, por sua vez, cessasse em dar à luz a tais monstros, Cronos corta os testículos do pai com uma foice que a própria Gaia havia afiado com intenção prévia, ficando desde então a foice como o símbolo da morte. Mas a morte não chega a Urano. Urano é imortal e, esse mito encerra não a vida de Urano, mas sim seu reinado que dá lugar ao não tão próspero reinado de seu filho Cronos, curvando-se Urano assim, para a implacável necessidade de evolução.
.....O sangue de Urano ao cair sobre a terra (Gaia) ainda a fecunda pela última vez, gerando as Erínias, os Gigantes e as Melíades, ninfas das árvores. Por outro lado, Cronos ao lançar longe no mar, os testículos do imortal deus, formando com o sêmem restante, expelido em contato com a água salgada, uma branca espuma, da qual vem ao mundo a mítica Afrodite, deusa do amor e da beleza.
.....Cronos tem a conotação do tempo, a fome devoradora da vida, o insaciável desejo da eterna evolução. Com a Titãnia Réia, sua irmã e esposa, criam um reinado que tem por analogia a era pré-consciente da humanidade. Cego ainda está o tempo neste período. A si mesma a vida não se compreende, parecendo mais um confuso e fervilhar de elementos que propriamente uma idéia de evolução.
.....Ininterruptamente, os seres nascem e morrem, sem qualquer tipo de ordem e, Cronos, para assegurar seu reinado, devora seus próprios filhos para não se fazer valer a profecia de que um de seus filhos o destronaria, assim como ele mesmo fez com seu pai.
.....Escapa-lhe, porém, Zeus, seu filho mais novo. Zeus derrota seu pai Cronos com a ajuda dos Ciclopes e de mais dois irmãos, Hades e Poseidon, ficando a eles, o princípio divino da espiritualidade. Com eles, uma nova ordem que surgirá com a geração dos olímpicos.
.....Destronando o próprio pai Cronos, Zeus estabelece no mundo a base das relações entre todos os seres.
.....Nem monstros, nem gigantes, nem cegos como os primeiros filhos de Gaia, os olímpicos fazem correspondência miticamente ao Homo Sapines, na evolução das espécies; ou melhor, encabeça um ser consciente de si, comunicativo, andando em apenas duas pernas, um ser criador com um dom jamais visto, invejado por todos os deuses do Olimpo: o livre arbítrio e a certeza da mortalidade, pela qual se tem sentido o tempo em que se passa na superfície de Gaia, a Mãe-Terra.
 

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