Homem e os deuses:
Hades, início da fé na vida após a morte...







.....Diferente das doutrinas de hoje, como por exemplo, na doutrina cristã, dentre outras, os gregos em suas representações dos infernos não tinham conotação de castigo ou recompensa. Homero descreve o Érebo como uma bela e grande planície em baixo da terra, na qual, os homens em suas pós-vidas, vagueavam eternamente como sombras sem inteligência, sem dor e sem alegrias. Só os que faziam muito mal a outrem ou cometiam delitos imperdoáveis sofriam, por ordem dos deuses, algum castigo.

.....Por benevolência destes mesmos deuses, alguns eram privilegiados e continuavam a viver com os seus mesmos afazeres quando vivos. Orião, a exemplo, continuou perseguindo suas caças. Héracles continuou envolvido em suas lutas contra os monstros, entretanto, estes são exceções. A regra era, nesta visão primordial de inferno, a apatia total dos mortos, a existência sem sentido ou vontade, sem recompensas ou castigos.
.....No continuar do tempo, o povo grego, evoluindo e se organizando em cidades-estados, criaram um sistema de justiça e disciplina que, por conseqüência, foi obrigado, pelo bem estar de todos, adotarem. Assim, passaram a ter o conceito de recompensa e castigo, castigando os criminosos e benevolando os benfeitores. Partindo desta nova concepção social, o conceito dos infernos modificou-se e passou a ter dois estados, sendo os Campos Elíseos para os bem aventurados e o Tártaro para os maus feitores, sendo os dois situados nas profundezas da terra. Para decidir o destino dos mortais nesta nova concepção infernal, os gregos imaginaram um tribunal com três juízes: Minos, Éaco e Radamanto; presididos por um juiz supremo, por um deus, o rei dos mortos, o senhor das trevas: Hades.
.....Este mundo era apenas na imaginação dos vivos, pois era impossível sua averbação. Apenas na Odisséia de Homero, o herói Odisseu, tinha entre os vivos, o poder de conversar com os mortos nos infernos e, para tal, se dirigia ao país dos cemitérios, na ilha ocidental onde só havia a noite. Outros poetas já achavam que esta região fazia fronteira com o Tártaro e, para outros ainda, o próprio inferno, embora para toda a população grega da época, os infernos ficavam abaixo da superfície da terra. No país dos cemitérios, Odisseu abria um profundo buraco e o banhava com sangue de cordeiro e de ovelha negra. O líquido vermelho se transpunha até chegar ao lugar onde as almas estavam e pudessem bebê-lo, sendo esta, a origem de sua força.
.....Esta idéia de alimentar os mortos, ou de que eles necessitavam de alimentação, vinham dos rituais fúnebres dos gregos. Nestes ritus, jogavam farinha e mel sob os túmulos de seus entes queridos na crença de assim estarem revigorando suas almas. Mesmo em não acreditarem que a vida após a morte levava o corpo, assim como os egípcios, acreditavam que a morte não era o fim absoluto. Extinguia-se a matéria, o corpo, digamos. O corpo não persistia, mas a alma e sua sombra continuavam por toda a eternidade, alimentadas pela farinha, pelo mel e principalmente da memória e dos afetos dos entes queridos ainda em vida.
.....Hades configura, como mito, o conjunto de toda esta idéia sobre um mundo invisível, conquanto os olhos dos vivos não podem ver, somente com os olhos da mente. Só é permito aos vivos terem uma idéia dos infernos e da vida após a morte, pela fé, pela imaginação e pela vã filosofia.
 

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