Introdução - O homem e os deuses...








.....Uma experiência religiosa seria viver o mito propriamente dito, porém, no caso dos antigos gregos é intrínseco entender e esclarecer que o mito em si não se identifica com a religião como coisa, embora sejam freqüentes os encontros e suas afinidades. Na religião, temos dogmas e uma conduta de regras, além de crenças e práticas autorizadas ou, até mesma impostas.

.....Mantém um grupo, digamos, uniforme. Um ente superior revela tudo isso e o codifica em um livro considerado “sagrado” servindo de orientação de conduta aos seus seguidores com concepção transcendente. Já o mito grego, não une os Homens com suas divindades, não cria entre eles, uma relação dogmática e ou normativa.
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O homem grego questiona seus deuses sem ter dor ou arrependimento, sem sentir-se um pecador ou mesmo estar cometendo algum sacrilégio. O paradigma do pecado é impensado para a antiga cultura grega. Os deuses não criam a moral e, por isso, não podem exigí-la dos homens. Atos cometidos contra algum deus, tirando sacrilégios contra seus cultos divinos, não é considerado diferente de um furto, por exemplo. É o dever moral que pode ser ofendido em relação a justiça em si, que, em seus termos, regula as obrigações e deveres entre os cidadãos e, por este aspecto, uma atitude imoral não caracteriza desobediência a qualquer mandamento divino. Assim, um grego não tem nenhum sentimento de contrariação, nem o tormento particular pelo qual a religião invoca um deus para pedir-lhe o perdão. O grego tem, em sua consciência, o conhecimento da lei da ação e reação, a lei do arrependimento, tem o desejo de se redimir perante atitudes imorais e assim sempre buscar sua evolução natural, encontrando nela, a força para se modelar dia-a-dia e atingir uma maior evolução interior. O grego é responsável pelo uso individual desta idéia cultural, sendo responsável diante de si mesmo por si mesmo e não nas divindades as quais não se aplicam os critérios morais societários e individuais.
.....As máximas em que os homens consolidam da vida, em função das próprias imaginações, fizeram aparecer, por conseqüência, os primeiros mitos. O nascimento, o amor e a morte, a maternidade, a paternidade, a virgindade, o certo, o errado e por aí se vai... Resumem tudo o que o homem, perante sua inteligência e seus sentimentos, conquistaram na percepção de uma vida a qual não escolheu; de uma morte que sabe que é certa e a qual o incomoda; de sentimentos amorosos que o domina e de uma natureza que o subjuga com inexplicável força. Os fenômenos naturais, tais como o sol, a chuva, o vento, os cataclismos, as doenças entre muitas outras, o aterroriza, o assombra e até mesmo o aniquila. A mulher que gera, acaba em se transformando na figura da mãe universal, tendo esta mesma divindade, por associação, veneração como a genitora e consoladora de todos os nascimentos da natureza, ganhando o título de mãe imortal, mãe de todas as coisas, mãe universal. Neste sentido, podemos hoje pensar em Gaia, a terra, depois Deméter etc. Neste mesmo raciocínio, a função paterna é assumida por Urano, depois em seu lugar, Cronos e por fim, Zeus, com o título de pai dos deuses e dos homens. Diretas ou indiretas, as outras relações existenciais, tomam como figuras outros deuses e semideuses, que por criatividade, foram todos colocados em um lugar, inacessível aos homens: o monte Olimpo, ou até mesmo nas entranhas da terra, como oo Tártoro e os Campos Elíseos e, ainda, alguns outros morando em determinados lugares na superfície. Completando estas relações, apareceram os deuses da guerra, da paz, da lavoura, dos navegantes e assim por diante. Foram variadas figuras que condensaram os desejos, necessidades, fatos históricos, situações econômicas e sociais, de acordo com o desenvolvimento da cultura grega. São as mais nítidas expressões dos anseios e desejos básicos da condição humana em si, além das mensuras que estes mitos assumem no ambiente em que se vive no tempo conhecido.
.....Nesta lógica, todos os deuses têm os mesmos ódios, alegrias e todos os outros sentimentos humanos. Mesmo o poderoso Zeus, tendo em vista sua poderosa paternidade, observa-se como um homem de certa forma comum, um fraco frente à paixão amorosa e assim, perdendo-se de amor por diversas mortais na terra. Hermes, o mensageiro do Olimpo, rouba e faz de sua sabedoria astuta, artimanhas contra seus irmãos deuses e também, hora contra o homem e hora em seu favor. Ares, mesmo com o título de protetor das cidades, incentiva guerra entre elas, pratica carnificinas sem motivos aparentes, ou não. Afrodite, personificação da beleza e do amor, trai seu marido sem o menor escrúpulo. Eros, mito primordial, que ordena o Caos, coloca-se contra Éris, a deusa da discórdia que, por sua vez, tudo desgraça. E, completando o raciocínio, todos os deuses com as mesmas necessidades de se alimentarem e a mesma doce ilusão de se manterem sempre fortes e jovens, consumindo o néctar e a ambrosina.
.....Quando as artes plásticas na Grécia se desenvolveram e se firmaram perante outras culturas, perto do século VIII e VII a.C., se materializaram também nas esculturas, pinturas e literatura, todos os deuses, saindo assim, da mera imaginação e da propagação pelo dito "boca-a-boca", para sua interpretação realista, representados por formas humanas, iguais as de um mortal. Tão forte era o mito que, mesmo o símbolo que os vivificavam, não eliminou suas conotações míticas e divinas. Pelo contrário, as perpetuaram.
.....O mito não ficou estagnado por esta perpetuação em sua fixação artística. A Grécia, apesar de sua transformação intelectual e social, teve seus mitos também modificados de acordo com as necessidades de tais transformações, além das mudanças psico-socias e as mudanças particulares de cada grego em si. Assim, é fácil explicar as contradições de um mesmo mito, durante o seu tempo de existência, nas quais seus atributos foram multiplicados e suas significações alteradas. Desta maneira também, foram, com a expansão da cultura grega, importados e agregados vários outros deuses e lendas, fazendo do mito grego, o mais rico do mundo até os dias atuais.
.....É percebido assim, por exemplo, que os deuses representados nos grandes poemas de Homero no século IX a.C., na Ilíada e na Odisséia, já não são exatamente os mesmos das tradições iniciais, no início da cultura helênica. Os são mais diretamente relacionados e interessados nos anseios e desejos humanos e, com grande gosto, interferem nas questões e vicissitudes dos homens. Também, Hesíodo, em meados do século VIII a.C., com as obras Teogonia e Tratado dos trabalhos e os dias, apresenta uma genealogia e hierarquia dos deuses gregos, com tendência a colocar uma ordem na confusa família olímpica, usando critérios que refletem as condições econômicas e sociais da Grécia agrária em sua época. Já em outras condições, perto do século VI a.C., os filósofos e dramaturgos começaram a manipular a matéria mítica até que os depõem de suas superioridades as quais o mito primitivo os cercavam.
 

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