Fábulas: Zeus, luta dez anos pelo poder...







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Breve foi o engano de Cronos, pois logo descobriu ter devorado uma pedra em vez do filho. Com uivos de furor e passos de ferro, saiu o deus a vasculhar o mundo em busca do herdeiro que mais tarde seria seu invencível inimigo. Nem no céu, nem sobre a terra e nem no mar haveria de encontrá-lo, porque nos densos bosques de Creta, se escondia o menino Zeus. No alto de sua árvore, a Ninfa Almatéia ocultara o pequeno deus, para que o pai voraz não pudesse vê-lo. Mas o que os olhos não encontrassem, os ouvidos talvez viessem a descobrir.
.....Por isso Almatéia preveniu-se com novos cuidados. Foram chamados os Curetes, guerreiros sacerdotes da mãe Réia, e Almatéia pediu-lhes que, ao pé da árvore, cantassem vibrantes hinos e dançassem batendo fortemente com os pés. Era preciso encobrir o choro da criança.
.....Assim, cresceu tranqüilo o filho de Cronos, oculto pelos clamores do permanente festim e pelas sombras da densa fonte. As abelhas do monte Ida fabricavam-lhe o mel que lhe adoçava o espírito. O leite que enrijeceu seu corpo era fornecido pela cabra Aix. Era um animal tão feio essa ama incomum que, os Titãs, em outros tempos, haviam rogado à Gaia que o encerrasse numa caverna distante de seus olhares. Dessa forma, a cabra foi ter à ilha de Creta e ganhou o privilégio de aleitar um deus.
.....O menino Zeus, entretanto, não se assustava com a aparência do animal. Ao contrário, demostrava grande prazer em correr com ele pelo campo. Um dia, em meio ao folguedo, arrancou-lhes os dois chifres e os enterrou ao pé da árvore de Almatéia com a promessa de que todos os frutos que a Ninfa desejasse, ali os encontraria. Era a cornucópia, os cornos da eterna abundância.
.....Por fim, cumpriu-se o tempo da infância e Zeus tornou-se adulto. Era hora de cumprir também a profecia de Gaia.
.....Da pele de Aix, o deus fez para si uma couraça impenetrável, a Égide, e, levando nos ouvidos os ecos dos cânticos e das preces dos velhos amigos, partiu para combater o poderoso pai e assenhorar-se do domínio da terra e do céu.
.....Métis, a Prudência, preparou-lhe uma beberagem miraculosa: tão logo ela chegasse as entranhas de Cronos, provocaria ali tal convulsão que o pai voraz se veria obrigado a vomitar todos os filhos antes engolidos, pois, dentro dele, todos estavam vivos, crescidos e adultos.
.....Levando nas mãos o precioso frasco que a deusa lhe entregara, Zeus acercou-se do pai e obrigou-o a ingerir a mágica bebida. E tudo aconteceu como dissera Métis. Estremecido por violentos e incontroláveis abalos, Cronos restituiu à terra, todas as criaturas que em outros tempos havia devorado e assim Zeus conheceu seus irmãos: a loira Deméter, o impetuoso Poseidon, a casta Héstia, o taciturno Hades etc. Apenas Hera ali não estava, pois, como ele próprio, também fora poupada.
.....A luta começava a se configurar. Para garantir a vitória, Zeus desceu ao Tártaro e libertou os Ciclopes, forjadores de armas, e os Hecatônquiros de cem braços, monstros que, em sua loucura de poder, Cronos os encerrara nas mais escuras profundezas de Gaia. Depois voltou para a companhia dos irmãos a fim de tramar o plano da batalha, enquanto os Ciclopes apressavam-se em fabricar poderosas armas para cada um dos três deuses mais corajosos. O capacete mágico para Hades, o tridente para Poseidon e o raio para Zeus.
.....Longa e árdua foi a guerra. Dez anos decorreram entre os primeiros combates e o glorioso triunfo. Cronos e os Titãs, seus aliados, vencidos pelos deuses irmãos, foram confinados ao mais profundo no Tártaro sob a vigilância dos monstros.
.....Em conferência, os vencedores se reuniram e dividiram entre si o domínio do mundo. Poseidon ganhou a soberania das águas, Hades assumiu o reino dos mortos e Zeus subiu ao Olimpo para lá comandar, altíssimo e absoluto, a terra e o céu, os homens e todos os demais deuses.
.....Mas Gaia estava descontente com o desfecho da luta. Não desejava ela ver prisioneiros seus filhos, os Titãs. Em vão pediu à Zeus que os libertasse. Recusados todos os argumentos, nada lhe restava a não ser recorrer aos gigantes. Incitou-os então contra o senhor do mundo. Tal idéia só contribuiu, entretanto, para propiciar ao altíssimo, nova vitória.
.....As desastrosas experiências dos vencidos deveriam ser suficientes para deter as pretensões dos novos desafiantes. Mas, nem o monstro Tifão, com seus absurdos sonhos de poder, nem os irmãos Aloídas, ardentemente enamorados das deusas Hera e Ártemis se deixaram atemorizar pelas lições das derrotas. Cada qual, por seu turno, investiu contra o Olimpo. E cada um, por sua vez, foi arrasado pelo deus.
.....Reinou então a paz no céu e na terra. Zeus, com suas vitórias sobre as forças da desordem, instala a ordem eminente e firma-se para toda a eternidade como rei supremo e, diante de tal, todas as vozes humanas e divinas se calavam, com respeito e obediência...
 

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