Fábulas: Hermes rouba o gado de Apolo e sagra-se rei...




.....Após longa dores e sacrifícios da maternidade, Cilene adormecida, sonhava com gratos sonos de compensação perdida no tempo e no espaço. Quando descansava sorridente e com o seu coração feliz e tranqüilo, não percebeu que seu recém-nascido filho estava perambulando já a grande distância, bem longe de seus cuidados.
.....Como única testemunha, a natureza que assistia silenciosamente as peripécias do deus menino. Com muita alegria e ar de criança astuta, Hermes caminhava feliz com o sucesso do seu recente feito ardiloso.
.....Sem barulho ou mugido as vacas caminhavam encantadas pelo bebê que, com ar travesso, as levava para outro lugar. Seus pensamentos, durante o delito, iam tomando forma no intento de se precaver para não ser descoberto e castigado.

.....Neste sentido, sua primeira atitude foi apagar as pegadas dos animais furtados. Fez, para isso, três coisas simultâneas: fez a vacas andarem de costas, todas com ramos de árvores pinduradas em seus pescoços e, por fim, calcou folhas de Mirto e Tamarindo em seus próprios pés.
.....Com as pegadas suas e das vacas apagadas continuo rumo ao seu destino. Atravessou a Tessália e a Beócia só parando em Pilo, perto do rio Alfeu. Muito pouco faltava para terminar com êxito seu feito criminoso. Entretanto, um problema apareceu-lhe logo à frente em sentido contrário. Bato, um senhor de idade bem avançada e de larga experiência, percebeu a cena.
.....Ao constatar o olhar do velho, Hermes, com receio de ser delatado, resolveu suborná-lo. Um bezerro Hermes ofereceu em troca do silêncio. A presteza com que o velho aceitou fez o deus criança desconfiar. Então resolveu testá-lo pondo-lhe em prova sua honra. Hermes ao afastar-se, se metamorfosiou em um velho pastor e voltou ao encontro de Bato. Contou-lhe que fora roubado vários gados seus e perguntou se notou algo pela margem do rio. Com promessas de recompensa sobre o paradeiro do ladrão ou qualquer informação que o levasse ao perverso, Bato contou o fato em seus mínimos detalhes. Mesmo sem terminar sua história, Hermes, revoltado com a atitude do velho, o transformou em pedra.
.....Já numa caverna, onde manteve as vacas roubadas, separou duas das melhores, as mais gordas e com mais saúde e as dividiu em doze partes iguais. Depois as ofereceu aos deuses do Olimpo. Escondeu, no fundo desta caverna, o resto do produto furtado e tomou rumo de volta à sua casa, ao lado da mãe Cilene, ainda adormecida.
.....Ao chegar na sua casa, encontrou em frente à porta uma tartaruga. Encantado com o animal disse:
.....Que sorte a minha. Sorte inesperada! Nada falta a este bicho. Bela de se ver, boa para fazer dançar, serve como alimento e tudo nela é amável. De onde vem este brinquedo tão dócil e bonito? E esta carapaça pintada de todas as cores? Dize a mim. Tu és uma tartaruga? Não freqüenta as montanhas? Vou levá-la para minha casa. É bom ficar em casa e deixar a noite passar. Tu me servirás sem demora. Com honra viva, apesar da má sorte, e, se morreres será apenas para cantar melhor!"
.....Após essas palavras, entrou em seu lar. Com estilete feriu a tartaruga e esvaziou-lhe a carapaça na qual colocou pedaços diferentes de cãna. Depois esticou sete cordas feitas com os intestinos das vacas sacrificadas. Assim, Hermes criou um novo instrumento musical: a lira...
.....Dirigiu-se então para sua cama e enfaixando-se como havia estado antes de sua partida, pôs-se a adormecer.
.....Na Tessália, o deus Apolo sentiu algo errado com o gado o qual lhe fora confiado a vigia pelo rei Admeto, acordou assustado e, despedindo-se rapidamente de Himeneu, foi correndo verificar o rebanho. Contou e recontou inúmeras vezes o número das vacas e, tendo em todas as contagens, a falta de cinqüenta delas. Com um grande sentimento de culpa e tamanha aflição por sua irresponsabilidade, Apolo sai à procura das vacas faltantes. Tinha esperança que tais vacas haviam se desgarradas durante a noite. Sem resultados nas buscas, Apolo põe-se a pensar e tentar ver o passado e descobrir o que poderia ter acontecido.
.....Com seus olhos divinos, descobre todos os detalhes da artimanha de Hermes. Furioso, correu a casa de Cilene. Desacreditada no que dizia Apolo, o fez seguí-la até onde se encontrava o inocente deus bebê adormecido. Apolo chegou até a acreditar, olhando aquele jovem deus, pequenino e meigo, que sua acusação fora injusta. Mas não receou em acordar Hermes e interrogá-lo sobre suas vacas sumidas.
.....Filho de Zeus, de quem vem me acusar e atormentar? Que idéia te ocorre de procurar aqui suas vacas roubadas de tua pastagem? Vacas que eu nem vi, nem conheci e nem sabia da existência delas! Como te diria quem as tomou, mesmo que me tocasse uma recompensa? Tenho ar de um ladrão de vacas? Tenho ao menos força para o ser? Não é este meu caso, mas sim apenas dormir e mamar na minha mãe, ser banhado com água quente e deitar nas faixas. Crê-me, que isto fique entre nós. Pois ninguém poderá imaginar que um recém-nascido tenha escapado da casa da mãe para roubar as vacas das pastagem, cujo guarda é um deus astuto como você Apolo. Não o farás crer a um só dos deuses. Eu nasci ontem, meus pés são frágeis e a terra é dura. Se quer, pela cabeça de meu pai Zeus, faço um juramento: Não vi, tão certo como eu estar aqui, o ladrão das vacas à sua guarda, nem nada que se pareça. Pois foi de ti que recebi essa notícia!"
.....Com palavras tão certas e seguras, Hermes desnorteou o astuto deus Apolo. Confuso, Apolo põe-se em direção ao Olimpo clamar ajuda ao todo poderoso. Em seus mínimos detalhes, Apolo conta tudo a Zeus e, Zeus, por sua vez, com grande esforço, controlou seu riso e orgulho causado pela artimanha de seu mais novo filho em face ao irmão, tão mais velho e inteligente. Mesmo assim, resolveu intervir a favor de Apolo. Falou com Hermes e mandou-o devolver as vacas roubadas. Hermes ainda tentou negar tal feito. Zeus, mais esperto e experiente, o persuade. Entretanto, quando Zeus volta ao Olimpo, Hermes novamente afirma perante Apolo sua inocência. Com caretas e piscadas de olho, não demonstrava cansaço pela pressão de Apolo. Ao preparar-se para negar mais uma vez seu crime, Apolo o interrompeu com risos cínicos:
.....Astucioso malandro, bravo! Com tal linguagem, lhe vejo na frente em malícia. Sim, este será teu talento, à noite, sem fazer barulho, forçar as portas das casas para esvaziá-las e deixar só as paredes ou, roubando por montes e vales, surpreender, flagelo dos pastos, os bois e os carneiros de que se fia a lã, quando tiveres desejo de comê-los. Levanta-te! Se não queres dormir aqui o teu último sono. Vamos companheiro da noite! Há uma recompensa que te espera entre os deuses; o nome de rei dos ladrões, que será teu para sempre."
.....Sem emitir um só som, Hermes apanha sua engenhosa invenção, a lira, e passa a tocar ironicamente belíssimas melodias acompanhadas com cantos improvisados em louvor aos pais e aos outros deuses do Olimpo. Apolo fica em silêncio e, encantado, escuta os maravilhosos sons da lira de Hermes. Pensou então em uma solução para o impasse: trocar os gados roubados por aquele instrumento maravilhoso. Hermes percebe o interesse de Apolo e, ardilosamente, finge não aceitar pensando em receber mais coisas interessantes na barganha. Apolo oferece então seu caduceu, uma varinha mágica de estimação que sempre o acompanhou desde menino. Com ela, comandava os rebanhos no Parnaso, além de transformar em ouro tudo o que tocasse. Hermes nesta hora, sem delongas, fecha o negócio. E assim, ficam os dois irmãos reconciliados para todo o sempre, tendo Hermes, em Apolo, seu irmão mais unido e amigo. Zeus, pela benevolência de Apolo, lhe concede mais prestígio...
 

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