Fábulas: Hefestos prende sua mãe Hera em trono de ouro...







.....No Olimpo, todos os deuses ficaram maravilhados com um trono de ouro que acabara de chegar. Chegara como um presente, um presente misterioso sem destinatário nem autoria. Ficou brilhando ao sol com tamanha intensidade que ofuscava a beleza dos próprios imortais. Protegiam os olhos sem muito efeito, com sofreguidão física nos olhos e no coração, veio o sentimento de posse para todos.
.....Mesmo com tal incômodo reluzente, nenhum deus se afastou. O prazer que a visão simplista lhes proporcionavam era maior que qualquer outra reação para fugir do desconforto.
.....Perguntas eram feitas enquanto se admirava tal trono. Todos estavam curiosos em descobrir quem teria feito tal obra de arte e a quem se endereçava. O tumulto trouxe a deusa Hera, a esposa do todo poderoso do Olimpo. Deixando seu aposento, tomou rumo à sala onde se travava tal alvoroço e, ao ver a magnífica peça, parou perplexa, deslumbrada e enfeitiçada. Assim, entrou na discussão.
.....Lentamente Hera foi se aproximando do trono. Todos, ao vê-la, ficaram em profundo silêncio dando ao tempo a impressão de inércia. Estupefada e sem palavras, a rainha do Olimpo sentiu um forte desejo de tomar posse de tal presente. Queria unir-se sem mais demora ao objeto reluzente. Sentir suas formas majestosas. Por fim, alegando ser a deusa das deusas e deuses, sentou-se e apossou-se do trono de ouro. A demonstração de poder e de riqueza sobrepujava qualquer sentimento, qualquer emoção latente. O sol iluminando-a sentada no belíssimo trono a fez se esquecer de todos os seus dissabores. Equeceu seu passado perdendo a noção do tempo e espaço. Passou a existir apenas Hera e o trono.
.....Tarde adentro a cerimônia silenciosa continuou. Foi-se a tarde sem algum deus se mover do lugar. Quando o primeiro imortal se deu conta que deveria retirar-se, devido a hora, pôs os outros a entenderem também que deveriam voltar as suas atividades e responsabilidades do dia-a-dia, deixando sozinha Hera e seu trono luminoso. Chegada a noite, Hera percebe apenas a escuridão e respira fundo, tomando impulso para levantar-se e retomar também suas atividades divinas; percebe que algo está errado. Estava presa ao trono. Faz força e mais força e, quanto mais tentava levantar, mais presa ficava. Com um ranger de dentes e muita raiva, tenta inutilmente sair. Veio então o temível medo e horror. Hera, batendo os pés no solo, de punhos fechados, solta um grito de pavor no meio de sua solidão egoísta. Seu grito foi tão poderoso que despertou todos no palácio e todos na terra dos mortais. Zeus foi o primeiro a chegar e logo depois todos os outros deuses e deusas, conquanto cada qual tenta sem efeito, desfazer o feitiço. Nem mesmo Zeus consegue tirá-la da bela obra de arte. Nesta hora, todos já sabiam quem forjou o trono e a quem se destinava. Hefestos era o autor e o presente era para a própria Hera. A intenção do deus do fogo era vingar-se de sua mãe por tê-lo rejeitado. O presente magnífico era a vingança do filho carente.
.....Em debates e idéias sem nexos, os desuses dos Olimpo estavam perplexos. Não havia sugestão que desse cabo de desfazer tal feitiço. Ao amanhecer do dia, vendo a esposa aflita presa no trono de ouro de Hefestos, expressa uma solução definitiva. Precisava convencer o deus do fogo a desfazer o maldito feitiço, fazendo-o subir ao Olimpo e tirar-lhe da cabeça a idéia de vingança, ou em troca de favores ou pela própria força divina. Desta maneira fora declarada guerra de todos os deuses ao divino ferreiro do Olimpo. Solicitaram então um voluntário para buscá-lo em sua forjaria.
.....Apresenta-se Ares, o deus da guerra, que prontamente viaja sozinho à ilha de Lemnos. Apesar de todos os riscos, promete trazer Hefestos para a presença de Zeus. Não conta porém, com a calorosa recepção que o deus do fogo deixou de prontidão. Colocando os pés na ilha é atacado sem tréguas por tochas incandescentes, produzidas pelo próprio deus do fogo e atiradas por ardilosas máquinas. Sem alternativa e com grande humildade, Ares volta ao Olimpo com seu penoso fracasso.
.....Sem alarme com a derrota rápida de Ares frente a Hefestos, os deuses em unanimidade mandam um segundo mensageiro à ilha do forjador divino. Vai então Dionísio, o grande amigo de Hefestos, pois, as uvas que cresciam na ilha de Lemnos, Hefestos as entregava ao deus do vinho para preparar-lhe a suntuosa bebida.
.....Na volta de Dionísio ao Olimpo, puxando Hefestos num velho burro branco, poucos acreditaram no que avistaram. O vingativo filho de Hera estava no Olimpo para que Zeus acertasse as contas de tal malvado feito.
....."Foi fácil", disse Dionísio aos incrédulos deuses. Explicou que fora simples entrar na ilha e embriagar o deus do fogo e jogá-lo desacordado em cima da montaria.
.....Hefestos se recobra de sua bebedeira horas depois e percebe a ardilosa armadilha que caíra, mas não se acanha e nem se sente derrotado. E apesar dos gritos de ameaça do deus do Olimpo, declara que só libertará sua mãe se Afrodite se casar com ele.
.....Zeus, apreensivo com a reação corajosa e determinada de Hefestos, retira-se para pensar no assunto. Não desgosta de Hefestos e muito menos esquece que dele recebeu seu indestrutivo escudo, seu cedro e o próprio palácio do Olimpo, além de ser ele o armeiro divino do Olimpo. Por outro lado, tem motivos para castigar Afrodite que lhe negara uma noite de amor. Assim, Zeus concede a mão da deusa da beleza e do amor a Hefestos. O deus do fogo sorri, liberta sua mãe e volta-se apaixonado para o lado de Afrodite.
.....No dia do casamento, Afrodite detestou um pouco mais seu irmão Zeus. Não poderia desobedecê-lo, porém, vingou-se do disforme marido com inúmeras traições amorosas.
 

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