Fábulas: Hades, ludibriado por Sísifo...








.....O astuto rei Corinto, Sísifo, foi testemunha ocular do rapto da Ninfa Egina. Esperto como era, guardou segredo até poder usa-lo em alguma ocasião com a qual poderia tirar algum proveito. Esperou pacientemente o rio Asopo, pai da Ninfa raptada, passar em suas terras. Este, em suas terras, foi logo procurado pelo rei que em troca de informações exigiu que este criasse uma fonte de eterna água cristalina na cidade de seu reinado. Depois contou-lhe:
.....O raptor de Egina fora Zeus.”
.....Zeus, deus supremo, irritado com tal delação, de imediato chamou Tánatos, a morte. Mandou-a arrebatar o esperto rei para as profundezas do reinado de Hades, no mais longe e profundo lugar no Tártaro. Tánatos, de aspecto sinistro, envolta em túnica negra sem algum detalhe, habitante dos infernos e amiga do deus Hades, chegou nas terras de Sísifo de súbito, levando em baixo das dobras de sua negra túnica um punhal encantado, que matava sem dor, arrancando a vida dos homens sem piedade e sem compaixão.
.....O astuto soberano não se atemorizou com a presença da morte, pois, fora avisado antes pelo rio Asopo. Com muita astúcia, arte na dialética e artífices emocionais, enganou a Morte, dominou-a e aprisionou-a em um calabouço previamente preparado. Durante muito tempo não houve uma morte sequer no mundo.
.....Alarmado, triste e desesperado ficou Hades nas profundezas de seu reinado. As sombras não se enriqueciam com a chegada das novas almas, penadas ou não. A barca de Caronte já há tempos estava quieta no leito do rio, sem função, sem utilidade. Hades tinha que restituir ao mundo subterrâneo e ao mundo terrestre a ordem natural das coisas. Então procurou a ajuda de seu ilustre irmão, rei do Olimpo.
.....Ciente da tramóia de Sísifo, Zeus forçou-lhe a libertar a Morte de imediato de seu agouro. A primeira vítima de Tánatos seria o próprio rei, o delator de Zeus. Não houve outra alternativa ao rei Corinto senão prestar-lhe obediência.
.....Já preparado para ir ao Tártaro em companhia de Tánatos, pediu-lhe, como última vontade, autorização para despedir-se de sua esposa e súditos. Neste momento de adeus, com esperteza voraz que lhe cabia, pediu a sua esposa que não o enterrasse e nem desse as devidas glórias fúnebres. Mesmo não entendendo o pedido do marido e nem a razão, a esposa o obedeceu.
.....Já julgado pelos três juízes supremo de Hades e condenado a eternidade no centro do Tártaro, Sísifo, dia e noite se lamentava:
.....Óh poderoso Hades, não tive honras fúnebres. Morri sem glória e sem um enterro digno. Minha esposa me desfez e nem ao menos colocou a moeda para pagar Caronte na travessia do rio, que de favor, me trouxe para o meu julgamento...
..... Tanto lamentou que, Hades, irritado, concedeu-lhe um breve retorno ao mundo dos vivos, por um curto tempo para acertar suas contas matrimoniais. Mal deixou o Tártaro, o astuto e esperto Sísifo, tomou rumo diferente e distante e a decisão firme de nunca mais voltar ao Tártaro. Com o passar do tempo, de muitos anos, já velho e sem forças para ludibriar Tánatos, já cansado de viver, sentou e esperou que a Morte o achasse. E, novamente Tánatos o arrastou a presença dos juízes e de Hades.
.....Como todos os deuses, Hades jamais esquece os feitos dos homens e, ao recebê-lo pela segunda vez em seu reinado, impos-lhe uma responsabilidade que não lhe permitiria um só instante de descanso, nem mesmo tempo para pensar em algo austero com intenção de ludibriar novamente o indiferente deus dos infernos, para uma nova fuga ao mundo dos vivos. Teria o antigo rei dos vivos que rolar montanha acima uma pesada pedra que sempre lhe escaparia ao chegar bem perto do cume da montanha. O corajoso que desafiou o deus das trevas, teria que sempre descer e retomar desde o pé da montanha até o mais perto do cume em um eterno movimento de sobe e desce...
 

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