Fábulas: Dionísio atende Midas e lhe dá o nefasto toque de ouro...








.....Atordoado de tanto vinho, tropeçando nas próprias pernas e já no final da festa, o velho Sileno foi-se embora... Com certeza não tinha a intenção de ir muito longe, pois, o velho adorava participar das felicidades e alegrias dos amigos e companheiros, mas a bebedeira travou-lhe o senso de direção e de distância e, por fim, o levou para um bosque bem afastado, cujo ar fresco e sombras das árvores o fez desistir de andar e tomar um canto para dormir.

.....Sendo reconhecido como o fiel seguidor do deus Dionísio, alguns camponeses, que por perto passaram, o levaram ao seu rei Midas. Ambicioso, o soberano logo viu uma grande chance de tirar proveito daquela situação e mandou preparar uma grande festa para o adormecido Sileno. Tratou-o como um grande rei, como um importante fidalgo. Foram dez dias e dez noites de festas com muitos convidados. No palácio real, que o abrigou nestes dias, houve danças, cantos, iguarias e muito vinho marcando a passagem do tempo de sua estadia.
.....
No décimo primeiro dia, Midas o levou para a presença de Dionísio. O deus alegrou-se em vê-lo, pois, já estava preocupado por sua ausência inesperada. Decidiu então recompensar o rei, não só por trazê-lo ao seu convívio, mas também por tratá-lo com tanta dignidade, honrarias e carinhosa hospitalidade. Assim, lhe prometeu realizar, dentre todos os seus desejos, entretanto, apenas um.
.....Riqueza era a grande euforia de Midas, embora já tivesse praticamente quase toda a riqueza do mundo dos homens. Queria sempre aumentar, sempre mais e mais... Queria se tornar a criatura mais rica de toda a face do planeta. Formulou então seu pedido:
.....Quero transformar tudo em ouro assim que eu tocar.
.....Dionísio o preveniu do futuro que o esperava com tal pedido, pois sua sabedoria era a sabedoria de um deus, era capaz de prever o futuro. Com tudo, como nenhum deus poderia revelar diretamente aos homens, não interferindo assim no livre arbítrio, na aprendizagem cotidiana e no desenvolvimento pessoal de cada homem, calou-se. Mas a promessa de um deus é uma dívida e assim, realizou seu pedido. Tomou rapidamente seu rumo junto aos seus companheiros que em festa estavam, não querendo ver a desgraça que Midas sofreria com tal pedido.
.....Sozinho, o ambicioso rei testou seu novo poder. Apanhou uma pedra do chão e, mal a tocou, a viu se transformar em uma pedra de ouro. Depois tocou um ramo de árvore e a viu se transformar inteira em ouro.
.....Seu sonho estava realizado. Seria o homem mais rico e poderoso do mundo e ninguém mais poderia se comparar a ele em riqueza e poder. Perto da hora do almoço, a realidade começou a brotar em seus pensamentos, pois, o primeiro desespero veio-lhe à tona, segundo as advertências de Dionísio. Na mesa, ao pegar o pão, o viu transforma-se em ouro com grande tristeza; ao pegar o copo para beber vinho, o viu também se transformar em ouro e; ao encostar os lábios no vinho, percebeu que este também se transformara em ouro, assim sucedeu-se com os legumes, carnes e frutas. Ficou impossível se alimentar sem a ajuda de alguém. Não era exatamente isso que desejava o soberano. Expressara-se mal para o deus do vinho por conta da ambição que habitava em seu coração. Não tem valia alguma transformar tudo em ouro se, com tanta riqueza, não poderia nem se alimentar, nem descansar em cama macia ou sentar-se em cadeira confortável.Não poderia tocar sua esposa e filhos, pois, se o fizesse, os transformaria em ouro. Não poderia esquecer de seu novo don e abraçar um amigo sem desgraçar-lhe a esposa e seus filhos. Percebeu que a riqueza não estava em seus bens e sim nas companias das pessoas que amava e que o amava.
.....Reconheceu a insensatez de seu pedido e, rapidamente, sem tocar em mais nada, procurou o deus do vinho para implorar-lhe o desfeito de tão nefasto poder. Dionísio já o esperava e, reconhecendo a rapidez com que Midas aprendeu a lição, deu-lhe o antídoto:
.....Banha-se nas águas purificadoras do rio Pactolos, que corre pelas terras da Frigia.”
.....Assim, Midas perdeu seu odioso poder de transformar tudo o que tocasse em ouro. Abandonou todos os seus bens e riquezas. Renunciou seu trono, esqueceu por completo suas ambições materiais e passou a conviver modestamente com os pobres, pastores e camponeses, ensinando-lhes aonde encontrar a verdadeira felicidade.
 

.