Fábulas: Deméter, castiga o rico Erisícton...








.....No bosque de Deméter, relembrando promessas e graças, guirlandas e faixas, um velho tronco de carvalho é testemunha. Muitos peregrinos vinham de lugares distantes e variados à sombra desta árvore, conquanto regiam suas preces. Nada na árvore era tocada, nem ao menos uma folha sequer, pois, grande respeito tinham os fiéis pelo carvalho sagrado de Deméter.
.....Sem se importar com os assuntos divinos, personificando o profundo egoísmo humano, Erisícton, o rico, resolve transformar em mobília para seu palácio a madeira da sagrada árvore. Nenhum homem aceitou o trabalho de derrubar e cortar seu tronco em pedaços e, nenhum artesão se prontificou a criar os móveis partindo daquela madeira. Assim, o próprio Erisícton, munido de ferramentas, pôs-se à frente da sagrada árvore para início do trabalho.
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As plantas ao redor tentaram avisá-lo, os animais em atitudes esquisitas também tentaram. Mas, cego em seu sentimento e desejo egoísta, nada viu, nada percebeu. Estava disposto e decidido em seu propósito.
.....Todos os devotos, com ar de reprovação, ao vê-lo chegar, ergueram sem manifestar qualquer reação ou palavras e se foram angustiados. O deus Eólio, de espanto com tamanha audácia, parou até de soprar quando o afiado machado ergueu-se no ar. Neste momento veio Deméter a sua presença, disfarçada em uma bela mortal e, sem demonstrar qualquer tipo de irritação ou desaprovação, pediu a Erisícton que desistisse da idéia. Explicou-lhe do aborrecimento e tristeza de Deméter, e certamente, raivosa o puniria com justa rigorosidade. O rico homem riu em resposta. Deméter disfarçada continuou a esclarecer-lhe o errado feito que prestes iria cometer, mas ele a ameaçou empunhando o machado acima de sua cabeça. A deusa, diante de tão grande insignificância e teimosia, retirou-se.
.....A velha árvore, ao primeiro golpe do afiado machado, soltou um doloroso e triste gemido. Sua seiva jorrou do tronco. Suas folhas e seus frutos de imediato perderam a cor viva para um amarelo pálido, meio embranquecido pela agonia da morte. No segundo golpe do machado, Deméter, por piedade, tira-lhe a vida, encurtando seu sofrimento. O sagrado carvalho morrera...
.....Deméter, indignada, não podia deixar tal atitude, tal crime sem castigo e, como é de sua alçada provisionar os homens de abundantes alimentos, condenou então Erisícton à morte pela fome. Todavia, não podia ela mesma ser o carrasco de tal castigo por ser ela a deusa das colheitas. Não tinha esse poder. Por sua vez, a deusa Fome seria capaz de cumprir a sentença. Mandou então uma Ninfa fazer visita a temível divindade e ordenar-lhe que, em seu nome, punisse o rico Erisícton.
.....Um lugar gelado, de solo desolado, terra estéril, sem colheita, sem árvores, era o endereço da deusa Fome. A Ninfa para lá se pôs a caminho, passando em grande velocidade pelos mares no alado carro da deusa Deméter. Ao longe, avistou em um campo pedroso, a horrenda, pálida e fétida deusa, com seus ossos marcando a fina pele esbranquiçada. Com enorme receio, a Ninfa aproximou-se até alguns passos de distância e transmitiu-lhe o pedido de Deméter.
.....Era noite e Érisícton, o homem que cortara o carvalho sagrado de Deméter, dormia em profundo sono. A deusa Fome, em seu vulto seco e insólito, chegou sem ruído e adentrou-se no leito. Em silêncio curvou-se sobre o insensível criminoso e o envolveu em seus magros braços. Com a boca ávida e horrorosa, beijou-lhe a boca e pronto. Estava acertada a sentença de Deméter. A essência da deusa Fome desceu-lhe pela garganta até o estomago, onde se alojou e lá começou sua saga temível. A incumbência da Fome estava concluída. Era só esperar o tempo...
.....Erisícton acorda de súbito, atemorizado por uma insaciável fome. Levanta-se e percorrendo a casa, come sem mastigar o que encontra, mas nada lhe satisfaz. Suas entranhas não absorvem nada e mantém uma imensa sensação de fome ardente. Vai a todos os comerciantes, batendo de porta em porta alucinado por comida, deixando dia após dia, seu rico dinheiro em troca de todo e qualquer alimento que pudessem vender. Em pouco tempo sua fortuna em espécie esmaeceu. Quando não havia mais dinheiro, mais uma única moeda e seu crédito findado, começou então a vender seus tão amados bens, seus móveis, a casa, o jardim, tudo gasto a troco de um pouco de alívio causado pela Fome alojada em seu estomago. Quando nada mais tinha a trocar pelo alívio alimentar, hesitado, olhou para sua filha Mnestra e, tristemente cedeu a voraz Fome. A vendeu como escrava.
.....Posidon, curioso, acompanhava o evento desde o começo e se compadeceu a favor de Mnestra, proporcionando sua fuga. Transformou-a em vários animais, até que um dia consegue retornar à sua casa, à sua cidade natal. Em forma de mulher novamente, presenciou o horripilante espetáculo que seu pai dava dentro da cidade. Faminto, percorria os lugares mais sujos e pobres, recurvado a procura de algum alimento nos lixos com sua afeição desesperada e esquelética. Com expressão enlouquecida, levava qualquer imundice à boca.
.....A filha lhe perdoou em grande pena e ficou ao seu lado tentando inutilmente trazê-lo para a realidade. Invadiu sob várias maneiras, tudo o que podia na cidade, desde uma casa até celeiros, arriscando sua própria vida em prol do faminto pai. Ganhou vários inimigos nestas feitas. Ao final, nada mais tinha a população da cidade a oferecer-lhes. Cerraram todas as portas, evitando novos assaltos e invasões. Nem lixo nas ruas o povo colocava mais.
.....Emagrecido, esquecido e enxotado por todos, Erisícton tomou a única decisão que lhe cabia a tal altura. Com a própria boca, começou pelos membros, a se devorar até a morte...
 

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