Século Va.C., a revolução clássica...





.....A Grécia entra em um declínio rápido devido às guerras entre Esparta e Atenas em uma sucessão de acontecimentos regulares e de conseqüências irreparáveis. Por outro lado, foi uma era de equilíbrio e serenidade intelectual nas quais a curiosidade inata e natural inquietavam os melhores filósofos, poetas, artistas e historiadores no caminho maior da sabedoria e, tiveram em Atenas, o local de intercâmbio para estas idéias que, em meio a tanta desordem organizacional, floresceu como algo que pudesse resolver todos os problemas existenciais do Homem.


.....O intelecto e artes como processo único na Grécia de 2.500 anos atrás.

.....Não houve um monopólio das artes e nem da filosofia na Grécia, muito menos ao que tange aos seus desenvolvimentos. Por exemplo, tivemos Policleto como o soberano das esculturas depois de Fídias, mesmo ainda este não sendo o mais importante. Entretanto, somos obrigados a equiparar pelo que temos hoje em mãos para análises comparativas, concluindo que a escultura era uma arte inter-cidades. Tais esculturas, tanto as de Policleto como as de Fídias, podiam ter sido feitas por eles mesmos como por algum discípulo eminente e ainda, de qualquer lugar da Grécia, pois, todos os artistas migravam de uma cidade a outra procurando trabalho e mais aprendizado. Mas, é em Atenas que se concentra os maiores estudos sobre as esculturas e qualquer outro tipo de arte grega. Lá se tinha o encontro intelectual de todas as facções filosóficas e artísticas da Grécia, nas quais encontramos obras de várias técnicas e idades, além dos grandes filósofos, que nesta época, eram todos adeptos de que a arte era a maior expressão metafísica que o Homem poderia alcançar...
.....Segue os dizeres de Tucídides em nome de Péricles dando-nos a concepção de como um ateniense pensava sobre si mesmo:
....."Que a cidade é em geral, a escola da Grécia e que cada homem dispõe aqui de campo para uma maior divulgação de ações, e, no entanto, com graciosidade e uma versatilidade feliz, porque abrimos por nós próprios, pela nossa coragem, os mares e a terra".
.....É uma pretensão de poder e êxito e, sua manifestação mais interessante ainda se faz na continuação da frase:
....."Porque estudamos o bom gosto e, no entanto, o fazemos com frugalidade, e a filosofia, no entanto sem malícia".
.....Essas palavras são verdadeiras justificativas e de grande fascínio e, foi em Atenas, no meados do século V a.C. que a justa medida, por conta do total domínio dos meios produtivos e mais a austeridade de concepção, que padronizou os modelos gregos. Daí se tem o rompimento com o estilo das artes arcaicas dando lugar a simplicidade e realismo que se seguiu. Instaurou-se o equilíbrio delicado entre as formas e pensamentos perante as ações e reações pertinentes na época a qual hoje chamamos de estilo Clássico englobando os estilos como o barroco, por exemplo.
.....É em Atenas que Héracles tem sua imagem como Herói difundido ao resto dos gregos, e até nós, como uma força idealista personificada nas vontades latentes da concepção grega. Este fora ilustrado como um homem rude e hirsuto, derrotando os egípcios com as mãos cheias, que mata todos os pássaros que tampasse o sol da Grécia, que luta e vence leões com mãos limpas, e que, segundo os poetas desta época, em suas clássicas criatividades, fazem com que ele quebre um crânio, por engano, de um simples cidadão com apenas um estalar de dedos... Colocam Teseu como um jovem elegante que se torna um honrado rei com extrema civilidade. Muitas vezes, estes dois heróis tem suas histórias misturadas como nunca fora feito antes, provando o novo estilo literário despontando no século V a.C.
.....As pinturas dos vasos sofreram grandes transformações pelas quais temos como excelente exemplo disso, a arte como grande poder decorativo somado ao seu uso em si, como nos vasos de Exéquias, mostrando a liberdade de expressão, assim como os pintores de vasos dionisíacos.
.....Surge como novas tentações a senilidade, o sentimentalismo e a emoção dramática como unidade de arte. Isto se desvairou até a literatura, na qual se têm as melhores obras, como por exemplo, as famosas tragédias e comédias gregas.
.....Em Atenas se desenvolveu o desenho em perspectiva aliado ao teatro para sua maior realidade, inserindo nos cenários o pano de fundo nas peças encenadas nas arenas ao ar livre. Para ilustrar, temos um documento que conta a contratação de um desenhista de pano de fundo de teatro para desenhar, com técnicas de perspectiva, uma parede da casa de Alcebíades. Estes desenhos trouxeram aos gregos uma nova visão sobres os desenhos de silhuetas, mudando-os para desenhos com profundidade e realismo de movimentos. A grande mudança mesmo se deu com o pintor de nome Polignoto que, cujas obras, não sobreviveram até nós, mas, foi intensamente elogiado, aclamado e solicitado para as pinturas em afresco em Atenas e, cujos comentários de seus contemporâneos nos levam a entender que sua arte foi como um terremoto visual e intelectual, incentivando seus discípulos na representação simples das coisas e, ao mesmo tempo, dando asas a imaginação a qual os filósofos tanto tentavam entender. Ele abandonou a linha de base e acontecimentos menores passando a usar o espaço como elemento físico. A sensação de movimento e quietude colocou-o como o primeiro pintor narrativo de toda a Grécia, descrevendo de forma magnífica os acontecimentos. Um exemplo importante desta nova fase da pintura inaugurada por Polignoto é um afresco do grande mural de Delfos, representando Ulisses e o mundo de Hades, cujo fundo dá a nítida impressão de profundidade e distância entre os elementos chaves da obra suplantada entre planos, superior e inferior, valorizando os elementos centrais.
.....Economizando meios e frugabilidade, a arte Clássica, após a perda da grandeza e vitalidade tradicional, mostrou claramente um novo movimento com simplicidade, mas com alta sofisticação acadêmica, digamos assim. As vestes eram representadas com caimentos mais simples e, ao mesmo tempo, mais reais. Nos rostos, a expressão de emoções fica visível, e seus semblantes fixos como se estivessem posando para a eternidade. Na mesma proporção a escultura, nesta fase, estava a caminho de um realismo total, junto com a pintura expressando uma qualidade excepcional, porém, mais teórica e mais consistente em si mesma, sem igual semelhança na história das artes do mundo todo.
.....Foi na revolução Clássica que os gregos ultrapassaram seus antecessores do renascimento. Começaram então a registrar suas teorias em livros como os de Policleto e Parrásio sobre escultura, Ictino sobre o Pártenon, Agataro sobre a pintura mural e Sófocles sobre o coro trágico.
.....É na literatura que este movimento teve maior disseminação e representatividade, pois, estes chegaram até nós em grande número, comparado aos murais, vasos e pinturas residenciais. Heródoto, mesmo que escrevendo tardiamente, é considerado um escritor ainda arcaico, mas que mesmo assim, compunha suas frases re-equilibrando suas histórias em capítulos, dando a seus livros, sentido e formas intuitivas. Depois, Tucídides com sua escrita clara, obteve efeitos monumentais, transformando a literatura grega em um verdadeiro Clássico na qual todos os autores futuros o seguiram na forma de expressar suas escritas. Assim, os escritos gregos começaram a ter idéias claras de fácil entendimento, conquanto os seus elementos tinham ótima organização. São estes dois escritores que mais exemplificam a revolução Clássica na Grécia.
.....Tucídides era contemporâneo dos sofistas que dominavam as regras da prosa e em geral, coisa retrograda para aquele novo tempo, pelo qual uniformizavam as formas antigas de discurso público, mesmo antes de serem registradas, configurando em uma prosa ornamental e de fins mais sonoros que intelectuais. Por fim, estes discursos tomaram tal importância para os gregos que passaram a serem uma matéria a ser ensinada, só que nos novos moldes de concepção da nova ideologia. Por aí, a Grécia tinha em Atenas, uma nova retórica, mesmo não sendo a única sofística. Entre em cena então os filósofos que transformaram a prosa em retórica e desenvolveram formas equivalentes nas quais conhecemos hoje como dialética. Assim, se tem uma nova arte, a arte de organizar argumentos. Mesmo isso, não sendo algo novo, tem nos sofistas um ultrapassar de limites, uma arrogância literária nunca vista até então em toda a história da literatura, mesmo contando com suas deficiências e seus maus resultados.
.....Eurípides é o representante das artes cênicas. Introduziu um certo colorido exótico em seus textos por conta de um impressionismo poderoso e complicado, mas com um brilhantismo de estrutura sem igual. As Bacantes é o melhor exemplo disso, mesmo que outras escolas digam que está em Sófocles o início da revolução Clássica na literatura.
.....Atenas detém a supremacia da poesia dramática, mesmo que seus sofistas e filósofos, exceto Sócrates, que era natural de Atenas, eram estrangeiros e, na sua maioria, provindos da Jônia, como Protágoras de Abdera, Pródico de Ceos etc. Estes sábios, ao migrarem para Atenas, influenciaram muito na reviravolta e no modo de pensar e agir dos gregos em geral, transformando também as artes, pois, seus escritos e idéias eram difundidos como o vento por toda a grécia a partir de Atenas.
.....É difícil dizer se foi exatamente nesta fase e por causa dos artistas e intelectuais que se deu o início da descrença na mitologia, na qual, muitos dos sábios foram perseguidos como Protágoras e mais tarde Sócrates...
.....O indício mais certo deste movimento está sem dúvidas em Atenas, exemplificados em obras literárias como As nuvens, As vespas, A paz, Os pássaros etc. Obras consideradas políticas e de alta reflexão social, representando, nas linhas e entrelinhas, as mais variadas formas de elogio, protesto e difusão de novas idéias.
.....Assim, o teatro ateniense se desponta como o mais espetacular, o mais musical e de caráter utópico com uma poesia de coral mais ritmado e; os textos, representando um contexto de um mundo mais feliz. As inovações foram ao extremo, porquanto os artistas perderam por completo a prisão de seus paradigmas em suas execuções, como por exemplo, em As rãs, com coro animal, inventado com muita criatividade e críticas embutidas sinuosamente nas linhas textuais. Foi uma obra hilária, pois, os atenienses estavam a beira da derrota para Esparta e prestes a entrar em colapso, mas na peça, soldados da Ática vão ao Hades implorar a volta de um estadista já morto, o melhor que lá estivesse, para voltar ao mundo dos vivos para salvar Atenas.
.....Assim, mesmo Atenas estando prestes a cair, seus artistas mantinham a condição de qualidade de vida, nas quais, seus trabalhos, até mesmo as tragédias, nos mostram uma enorme vontade de viver e contemplar a vida, mesmo que em tempos tempestuosos.
.....A arquitetura também teve seu resplendor neste século. Foi nesta fase que o mundo ganhou o Pártenon, maior obra arquitetônica da época em beleza e grandiosidade, ficando como um exemplo Clássico até nossos dias. Outra obra da arquitetura Clássica é o templo de Erectéion, na Jônia, mesmo que, do seu início até seu final, levou tempo e a interferência de sucessivos artistas, trabalhando em sua arquitetura e sua escultura frisa.
.....Na mitologia, os artistas passaram a representar os deuses cada vez mais humanos, como por exemplo, Atena inclinando-se e apoiando-se em sua lança, mostrando um expressivo cansaço. Já os deuses masculinos passaram a serem representados como ideais de corpo, com forma atlética e de magnífica beleza aparente. Afrodite passou a ser esculpida de forma mais erótica e sensual. Até os sátiros foram representados com expressões tipicamente humanas.
.....Por fim, as artes passaram a representar o dia-a-dia realmente como ele o era e as coisas como realmente eram, tendo isto se perpetuado até nossos dias nas representações das esculturas, nas quais, as estátuas pareciam até andar, posto as regras de proporções e perspectivas já bem concebidas entre os gregos Clássicos do século V a.C.
 

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