A Grécia de Péricles...





.....Com conhecimento insuficiente que temos, não podemos compreender exatamente os gregos dos séculos iniciais, do povo depois da civilização micênica. Entretanto, os gregos do século V a.C., com a escrita alfabética em curso, com a ascensão das artes e literatura, somada aos registros patrimoniais, de leis positivadas e mais os arquivos administrativos, vislumbramos a certeza do que foram e como viveram no auge da Era Clássica.


.....A Grécia de Péricles, do maior estadista do mundo antigo.

.....Início do fim das famílias oligarcas:
.....Após a reconquista da liberdade dos jônicos na Ásia menor, expulsando os persas de seus territórios, as cidades se encontravam como antes, com quase nenhum edifício público, apesar destes não terem sido construídos nem em outros tempos por causa dos pesados impostos pagos a Atenas e tributos pagos para as alianças políticas, econômicas e militares. Em Atenas, propriamente dita, nesta fase, houve uma profunda mudança na moralidade popular, dando ênfase ao lucro acima do cidadão, pois, os velhos oligarcas, após seus deveres, se retiravam para suas quintas luxuosas deixando as cidades sem as devidas atenções nas questões de cidadania em si. Por exemplo, Isócrates, pouco antes do auge do classicismo, já dizia que a posse de riqueza era atributo seguro e socialmente impressionante para um homem, se referindo à uma fase mais antiga na qual os valores antigos de honra pública e vergonha pública prevaleciam. Porém, a ação dos governantes estavam despersonalizando o conceito de dever público, com os ricos ostentando em demasia. Assim, aqueles que contribuíam, com pesado fardo, como as cidades jônicas, não viam retorno e nem benefícios. Os pobres aplaudiam os dramaturgos e não os ricos oligárquicos que pagavam a sua representação. Desta maneira, temos como concepção de caráter no século IV a.C. de que se era vergonha esconder os bens para fugir dos impostos, e, no século seguinte, os oligárquicos mantendo suas riquezas em espécie e escondidas em suas quintas, gastando em sigilo de acordo com suas necessidades e oportunidades. No passado, estes oligárquicos construíam edifícios públicos, ostentando poder, honra e prestígio entre os seus e, principalmente entre uma cidade em competição à outra. Comandavam seus próprios navios de guerra e distribuíam carne à vontade ao povo em dias de sacrifícios e rituais religiosos. Estavam de prontidão nos tribunais e conselhos, mostrando responsabilidade com seus encargos sociais em si.
.....A oligarquia começou então a exercer seus deveres com politicagens baratas, por interesses extrangeiros e próprios, deixando de lado o eminente colapso social das classes mais baixas, como já havia previsto Xenofantes, o historiador que viveu no século passado.

.....Ascensão e consciência das classes baixas:
.....Ao mesmo tempo em que a oligarquia alimentava seus paradoxos sobre honrarias, principalmente entre eles mesmos, as classes mais baixas, na cidade de Atenas, com pioneirismo, começou o interesse pelo dinheiro cunhado, na expectativa de melhoria de qualidade de vida. Antes a economia se via no aspecto doméstico, simples economia de subsistência com sistemas de permuta, ou seja, troca simples de mercadorias.
.....No período em que Péricles ficou no poder, em meados do século V a.C., os gregos que trabalhavam nos campos foram recrutados para as constantes guerras. Na cidade, os gregos que viviam por conta do dinheiro público e das caridades sociais provindas do Estado já eram vistos pelo povo comum como mercenários. Estes por sua vez, com certo acumulo de capital, começaram a se tornarem pequenos comerciantes locais. Assim, bem como a moralidade, a política se voltou em função do dinheiro, dando oportunidades políticas aos que, das classes mais baixas, estavam acumulando capital e ganhando automaticamente poder político por meio de patrocínios ao Estado e, principalmente por patrocínio militar.

.....O início do comércio de varejo:
.....A permuta ateniense tinha nos cereais seus valores estipulados publicamente, tendo em vista que dois terços destes cereais eram importados. Nos portos pelos quais este produto era comercializado em grande escala, estavam as grandes casas e os cidadãos fortes, emergidos das classes inferiores, como por exemplo, em Olbia, no mar Negro, onde se acham indícios arqueológicos de grandes centros de armazenagem de cereais, sugerindo a presença de grandes comerciantes atacadistas. Esta cidade serve como exemplo pela sua provável organização empresarial, sua administração pública e, já com o conceito comercial em substituição as oligarquias locais. A própria Pérsia, por conta do imperador em ordem direta aos seus reis, manteve um rico comércio com, e, nos mesmos moldes gregos, independentes das eminentes guerras. Assim, a Pérsia nunca cessou seus negócios com os comerciantes gregos, mesmo estando em guerra com a própria Grécia.
.....Atenas decaiu por ter centrado sua economia sob um comércio de apenas um produto básico a qual não detinha este produto em si para seu próprio consumo. As regras nunca eram as mesmas e ainda eram determinadas por outras cidades produtoras que produziam em excesso. E, com a decaída de suas forças armadas, Atenas se viu em um certo colapso econômico no final do século V a.C., conquanto, a classe mais baixa em ascendência, começaram a aparecer com quirelas comerciais em pequenas lojas caseiras. Desta maneira foram prosperando durante os anos, transformando-se em verdadeiras empresas mercantis.
.....Já no outro lado do Mediterrâneo, a disputa pela prata e bronze, principalmente para se cunhar moedas, teve desastrosas conseqüências sociais.
.....O fornecimento de cereais, cavalos, prata e bronze, eram coisas naturais em Atenas, pelos quais os estrangeiros diziam:
..... "São aqueles que comem os cereais de Deméter".
..... Nesta fase fica claro um certo corte no fornecimento, na qual Atenas, neste período, tinha sua população básica no centro urbano. A maioria era de mulheres, crianças e escravos sem direitos políticos, além dos escravos de povos conquistados. Não obstante, Atenas foi obrigada a rever seu estatuto dos estrangeiros e de seus próprios cidadãos, uma vez que ano a ano crescia demasiadamente o número de habitantes, tal como em relação aos bastardos e mestiços, particularidade propícia para o varejo.


.....Os escravos e a relação de escravatura:
.....Foi na cidade de Quios, provavelmente, que o sistema escravagista começou para os gregos. Não se podia haver um sistema desse se o comércio não fosse intenso e bem organizado. As guerras, as dívidas e pirataria eram os maiores fornecedores de escravos, pelos quais, os seres humanos eram comercializados como uma mercadoria qualquer.
.....Por exemplo, em Atenas, havia numerosos escravos de várias nacionalidades chegando a estar em número equivalente aos seus cidadãos. Isso na concepção de Aristóteles era bom, pois os escravos faziam os serviços que o cidadão grego considerava inferior e que, todos sendo de várias nações e lugares, não se consistiam uma ameaça por revolta.
.....O maior número de escravos na Grécia antiga estava em Láurio, nas minas de prata, contando entre vinte e trinta mil homens.
.....Em sua maioria, principalmente nas cidades de grande influência, os escravos eram quase todos de povos conquistados que trabalhavam nas minas ou pedreiras, como por exemplo, nos Pireus, antes mesmo dos gregos alcançarem a Sicília, ou as pedreiras de Siracusa. O Estado arrendava as minas em tempos de necessidade de matéria-prima às explorações rápidas.
.....A vida dos escravos nas áreas de exploração era dura, mas em compensação, a vida dos escravos nas cidades era de boa qualidade com base no respeito ao Homem como Homem, coisa ao qual os gregos tinham como a máxima das máximas. Tinham os mesmos direitos à vida com exceção a cidadania. Trabalhavam nas casas como domésticos, como educadores dos filhos dos homens livres e ou afazeres comerciais, além do trabalho caseiro nas quintas da classe dominante. Eram trabalhadores sem remuneração e direitos civis; únicas diferenças dos escravos nas cidades em comparação aos homens livres. Muitas vezes um escravo acabava por se tornar um membro da própria família da qual pertencia sua escravatura.

.....Aspectos culturais entre os ricos e os pobres:
.....Em Atenas, em mais da metade do século V a.C., a maioria dos cidadãos já eram homens pobres e, mesmo assim, com alto contraste em relação aos escravos. É difícil dizer quantos pobres e quantos ricos viviam nas cidades, pois nestas mesmas cidades não há ruínas de grandes casas, entretanto, há grande número de quintas nas rendondesas, levando a entender que os ricos tinham seus negócios nas cidades e sua moradia familiar nas quintas. Isto é bem ilustrado pelo ditado ateniense:
....."Que a vida não me mostre o contraste entre o trabalho na quinta e o labor nas minas".
.....Os ricos se acumularam principalmente nas concessões no início das colonizações, pelas quais, as primeiras famílias tiveram suas vantagens durante o passar dos anos, junto ao crescimento da colônia em si.
.....Outra demonstração desta divisão social está nos cemitérios que até o século V a.C. tinham todos os homens enterros sem distinção e, a partir deste período, começaram os grandes túmulos em separado dos homens comuns. Esses cemitérios nos mostram nesta fase que, três quartos da população eram enterrados em setores de caráter pobre. Nestes túmulos não haviam qualquer tipo de oferendas aos deuses ou utensílios que seus mortos pudessem usar após sua morte.
.....Os escravos para os antigos gregos não passavam de números, nos quais, o Estado até então, não tinha nenhuma política em relação a esta classe social. Outra curiosidade é de que um escravo, conquistando sua liberdade, seja por fuga ou mérito, poderia se tornar qualquer coisa que um cidadão livre, na idéia de que um Homem livre é um Homem igual a qualquer outro Homem, independente de credo, religião ou nação.

.....O dia-a dia do cidadão grego:
.....Sabemos muito pouco sobre o cotidiano dos gregos porque o dia-a-dia do cidadão comum não era registrado e não há indícios arqueológicos suficientes para chegarmos a uma definição concreta, mas, nas literaturas, arte e escritos, principalmente dos filósofos que chegaram até nós, pode se ter uma grande idéia de como vivia o cidadão comum.
.....Como exemplo, um escrito de Hesíodo sobre a idéia cômica de arrumar uma boa esposa:
....."Uma mulher não é para casar, mas apenas para seguir o arado".
.....Várias pinturas e vasos nos mostram as mulheres fazendo oferendas aos deuses em seus jardins e ou arrumando mesa para refeições, cuidando da casa, crianças e dos maridos.
.....Nesta mesma temática, percebe-se os homens trabalhando na administração do Estado, nas forças armadas, nas oficinas comerciais etc.

.....A religião neste período:
.....Dentro dos paradoxos em que a Grécia vivia nesta fase, podemos afirmar a religião como algo predominante aos escravos e homens livres classificados como pobres, e completamente refutado pelos homens livres de maior poder e influência, conquanto, a razão estava em primeiro lugar, considerando a mitologia uma alegoria na qual se fazia necessária ao Estado na intenção de controlar a ética e justiça nas ações e concepções do povo medíocre em geral. Ahúres, os deuses passaram a ter várias funções e mesmo até, funções diferentes sob o mesmo nome. A religião ficou alterada com seus elementos variáveis. Por exemplo, em Delfos havia uma celebração à Hermes, deus dos ladrões, mas o que realmente se esperava era mais chuvas e uma colheita excedente para alimentar a população e ainda se ter o suficiente para a comercialização com outras cidades e povos.
.....Esta concepção de religião perturbava muito os filósofos, levando inclusive, Sócrates a julgamento por alegar aos jovens, dentre outras acusações, que o que morre é apenas o corpo e, a alma sendo eterna, subordinada a ela mesma sob a observação de um único deus; coisa inconcebível para a administração do Estado em relação ao povo (controle social), pois a ética e conduta moral do grego era baseada na mitologia.
.....Para o povo pobre e escravos, principalmente os escravos de origem grega, a religião era levada ao pé da letra. Há também indícios, nesta época e casta grega, de sacrifícios humanos em nome dos deuses como no ritual de iniciação infantil em Bráuron.
.....A religião nesta fase perdeu seu caráter natural e, quem a estava cultuando já não sabia mais a qual deus e a que se estava realmente prestando culto, ficando praticamente sem uma identidade mítica. Isso trouxe o aparecimento de cultos exóticos e inexplicáveis, além de indulgências mágicas em junção da religiosidade em si.

 

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